Deixei de ser filha só porque os
meus pais morreram?
Não continuo a dizer que meu pai gostava disso ou minha mãe costumava dizer aquilo?
Então continuo a SER mãe, mesmo
de filhos mortos.
Há dez anos, encontrava-me
grávida de gémeos.
Tudo corria bem, apesar de ser
uma primeira gravidez, apesar de ter mais de 40 anos, apesar de ser uma
gravidez de gémeos.
Era seguida e bem acompanhada
pela minha médica, através de análises, ecografias, até amniocentese…
Até que… durante uma ecografia,
só ouvimos um coraçãozinho.
Lembro, exatamente, o que a minha
médica disse, naquele momento: “Perdemos
um.”
A pressão arterial teve uma
subida abrupta que causou uma tensão placentária, impedindo o desenvolvimento
dos meus bebés.
Segui, imediatamente, para a
Maternidade Alfredo da Costa para tentar salvar o outro bebé, pois o Pedro já
tinha falecido. (E não me venham falar que não posso dar um nome a um feto
morto. Dentro da minha barriga, já era
meu filho).
Através de uma cesariana, nasceu
o Henrique com 27 semanas e 630
gramas.
Não me deixaram ver o Pedro e nem
o Henrique que seguiu, de imediato, para a Sala 5.
O Henrique lutou, cada minuto,
durante 22 dias.
Durante 22 dias, vi Anjos (na
forma de enfermeiras/os e médicas) entrarem nessa luta de corpo e alma. As
doutoras e as enfermeiras/os estavam sempre atentas a tudo e também tinham a
paciência de explicar-me tudo o que se passava com o meu filho.
Até as voluntárias da Sala 5,
eram pessoas especiais. Lembro de um dia em que o Henrique lutava mais uma vez
pela vida, rodeado por uma equipa de médicos e enfermeiros. Ao ver aquele
alvoroço, fiquei sem reação. Surgiu logo uma voluntária para apoiar-me. Com uma
mistura de graça e seriedade, foi contando a situação e acalmando-me.
No dia seguinte, essa voluntária
aproximou-se de mim, olhou-me bem nos olhos e disse: “Pois é. Ontem, o Henrique
quis ir jogar à bola com o irmão, mas o irmão mandou que voltasse, pois ainda
não havia vaga na equipa.”
Ao fim de 22 dias, o Henrique
juntou-se à equipa do Pedro.
Hoje, os meus filhos fariam 10
anos.
Sim, os meus filhos.
É claro que não perco tempo a
acompanhar os seus trabalhos de casa, a fazer-lhes a comida, a levá-los à
escola, ao futebol…
É claro que não perco tempo nas
consultas médicas, nas reuniões de pais, nas festas de aniversários para os coleguinhas…
Mas… alguém já pensou no que faço
para preencher todos esses espaços vazios?
Alguém, por acaso, pensa que ao
enterrar-se um filho, ele desaparece de nosso coração, de nossa memória?
Por favor, não digam que tenho
mais disponibilidade porque não tenho filhos.
Eu não tenho filhos por opção
profissional ou pessoal.
Eu tenho filhos e, apesar
de não ter a experiência que muitas mães têm nas atividades que desenvolvem com
os seus, acreditem que tenho uma experiência que pouquíssimas têm: o de
levá-los ao cemitério para serem lá depositados.
Há 10 anos tenho ouvido muitas
frases, acredito, que com as melhores intenções para o meu consolo; porém,
depois de sermos mães (mesmo de filhos falecidos), ficamos com a sensibilidade
mais aguçada. Não quero compaixão. Quero compreensão!
É isso!
("PEDAÇO DE MIM" foi composta para uma peça teatral, “A ÓPERA DO MALANDRO”, na qual a
personagem perde um filho, após nove meses de gestação e mostra todo o sofrimento
da mãe na perda do filho-, o grande sinónimo do poema é a saudade e a dor
incontroláveis.Vale a pena prestar atenção na letra deste tema de Chico Buarque.)
Oh,
pedaço de mim
Oh,
metade afastada de mim
Leva
o teu olhar
Que
a saudade é o pior tormento
É
pior do que o esquecimento
É
pior do que se entrevar
Oh,
pedaço de mim
Oh,
metade exilada de mim
Leva
os teus sinais
Que
a saudade dói como um barco
Que
aos poucos descreve um arco
E
evita atracar no cais
Oh,
pedaço de mim
Oh,
metade arrancada de mim
Leva
o vulto teu
Que
a saudade é o revés de um parto
A
saudade é arrumar o quarto
Do
filho que já morreu
Oh,
pedaço de mim
Oh,
metade amputada de mim
Leva
o que há de ti
Que
a saudade dói latejada
É
assim como uma fisgada
No
membro que já perdi
Oh,
pedaço de mim
Oh,
metade adorada de mim
Lava
os olhos meus
Que
a saudade é o pior castigo
E
eu não quero levar comigo
A
mortalha do amor