Companheiros de Pensamentos

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domingo, 26 de março de 2017

Pai



Hoje farias 90 anos. 
Farias?
Não.
Fazes!
Pois continuas vivo em mim,
no meu coração,
nas minhas memórias,
na pessoa que sou.
Parabéns, Pai!


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O anjinho de uma asa só


O Natal aproxima-se e, como de costume, chega o momento de montar o presépio.
Sempre que começo a desembrulhar as figuras, relembro as histórias que os meus pais aplicavam a cada uma.
Desde os Reis Magos, com seus nomes e presentes, passando pelos pastores e o que cada um oferecia; como o que trazia a vasilha de leite, o que trazia um saco de farinha, aquele que trazia a gaita-de-foles para oferecer música, a mãe acompanhada de sua criança ou a velhota que trazia o seu fuso de fiar, entre tantos outros.
Os animais também eram fontes de lendas como os que ladeavam o Menino Jesus ou as pombas e os galos.
Não podiam faltar os anjinhos e, entre eles, um que só possui uma asa.
Sempre que pego nesse anjinho, em particular, lembro de imediato como a minha mãe aproveitou para ensinar-me algo que ficou enraizado em mim, desde a minha tenra idade.
Quando criança, ao deparar-me com esse anjinho “estragado”, perguntei à minha mãe porque não o jogávamos fora, afinal era diferente dos outros que, perfeitos, possuíam as duas asas.
Minha mãe, naturalmente, não perdeu a oportunidade.

“- Só por ser diferente não presta? Não merece ocupar o seu lugar no presépio?
Aprende, filha, que não se pode rejeitar alguém por ser diferente, por ter alguma deficiência. Ninguém deixa de ser alguém por não ter uma perna ou um braço. Todos têm direito ao nosso respeito!
Portanto, este anjinho, mesmo sem uma asa, não deixa de ser um anjinho e tem o seu lugar ao lado dos outros.”

Ele foi conservado e hoje, após tantos anos, o anjinho de uma asa só continua a fazer parte do meu presépio.


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Lição de Mãe

Tenho a certeza que toda a pessoa que começasse a lembrar tudo o que aprendeu com a sua mãe, teria material mais do que suficiente para escrever um livro.
Refiro-me a “Mãe”, independentemente do fato de ser, ou não, progenitora. Infelizmente existem muitas progenitoras que nunca virão a ser mães…
Já não tenho a minha Mãe na minha vida mas seus ensinamentos continuam vivos em mim.
E o que eu aprendi com ela?
Aprendi que “viver é fácil; difícil é saber viver”! Quantas vezes disse-me isto e só depois de ela ter partido é que compreendi o verdadeiro sentido desta frase…
Aprendi que a verdadeira felicidade está nas pequenas coisas, nas mais simples atitudes de carinho, no prazer de fazer o outro feliz.
Lembro-me, particularmente, de um momento.
Um dia, meu pai chega do trabalho, com um pacote de arroz nas mãos e diz, todo satisfeito:
- Guidinha, disseste que o arroz estava a terminar e passei no supermercado para comprar-te um pacote.
De imediato, quando reparei na marca do arroz, percebi que a minha mãe detestava aquele arroz. Preparava para verbalizar a minha observação quando a minha mãe, prontamente, agradeceu efusivamente ao meu pai, ao mesmo tempo que lançava-me aquele olhar que queria dizer “quieta!”.
Esperei o meu pai retirar-se e confrontei a minha mãe:
- A mãe odeia esse arroz e não disse nada ao pai!
Minha mãe olhou-me, seriamente, e respondeu com a sua constante calma:
- Filha, o teu pai depois de um dia de trabalho, cansado, desce numa paragem de autocarro mais distante de casa, vai ao supermercado, espera numa fila para pagar um pacote de arroz, faz o resto do caminho até casa a pé, só porque lembrou do que eu disse ontem à noite; e tu queres que, depois disso tudo, diga-lhe que não uso dessa marca? Oh, filha, amanhã eu compro da minha marca preferida. E este, fica descansada que não se joga fora, pois a nossa cachorrinha vai adorar!
Uns bons dias depois deste episódio, meus pais e eu estávamos a fazer as compras no supermercado. Quando a minha mãe pega um pacote de arroz (o seu preferido), o meu pai reparou que não era daquela marca que ele tinha comprado anteriormente e comentou isso, ao que ela, prontamente, respondeu:
- Ouvi falar desta marca, resolvi experimentar e é mesmo melhor do que o outro.

Ouvi a sua resposta e ainda estava a sorrir, quando a minha mãe, ao passar por mim, sussurra “viver é fácil; difícil é saber viver”.

terça-feira, 31 de março de 2015

MAÇÂ


Com o último post, vieram mais “companheiros de pensamentos” e, assim, já somos 150.
Nunca imaginei que chegaria a este número quando comecei a “desabafar” para este meu blog.
Achei interessante este post, sobre o que meu pai dizia, ter “convidado” mais pessoas para este cantinho.
Muitas vezes, quando assisto a programas de televisão e ouço depoimentos de pessoas dizendo que seus pais, geração anterior ao 25 de abril, eram muito autoritários e distantes; pasmo de como o meu pai podia ser tão diferente.
Lembro de minha mãe contar que, certa vez descíamos a Rua do Sol ao Rato e eu, que contava uns 5, 6 ou 7 anos, estava aos empurrões com meu pai e vice-versa. Como aquela rua era (ou ainda é, não sei) muito estreita, minha mãe vinha mais atrás e ouviu um comentário de um casal que ao observar-nos disse: - Que falta de respeito!
Minha mãe, sempre muito educada, apesar de ser de poucas falas, não se conteve. Dirigindo-se ao casal, a sorrir, disse: - O que estão a ver não é falta de respeito. O que vêm é uma filha e um pai a brincarem. Garanto-vos que há muito respeito, educação e carinho.
Minha mãe não ouviu resposta e continuou seu caminho. E nós continuámos a nossa brincadeira, alheios a tudo, porém… se esse casal visse as nossas brincadeiras dentro de casa… ficariam em choque. Havia batalhas de almofadas, corridas de carrinhos no corredor, cambalhotas … Estávamos na década de 60.
Não via o meu pai durante a semana: quando ele saía para o trabalho, eu ainda dormia; quando ele chegava, eu já dormia. Mas no domingo… Ah, o domingo! Meu pai esquecia o cansaço e era só alegria.
Não, meu pai não era autoritário. Mas havia autoridade, sim. Meu pai e minha mãe só tinham uma palavra. Quando era NÃO, era não; quando era SIM, era sim. Porém, também existia o TALVEZ; quando um dizia que primeiro ia conversar com o outro. (Independente se era mãe ou pai.)
Nunca apanhei de nenhum deles. Quando fazia alguma asneira, meus pais tinham atitudes distintas: minha mãe dizia, simplesmente, que estava triste com a minha atitude e que eu devia pensar melhor nas minhas ações e suas consequências; meu pai aplicava os seus “sermões”. Não havia gritos, nem palmadas, apenas MUITA conversa.
Lembro de uma dessas situações que ficou bem marcada na minha memória.
Estávamos em Luanda, Angola. Tinha 10 anos. Era fim de semana. Minha mãe pede-me para fazer um recado ao Sr. Carvalho, dono da mercearia do bairro. Lá fui eu, fiz o recado e, ao sair da mercearia, peguei numa maçã (não lembro do recado mas lembro bem da maçã!) com a intenção de, ao chegar em casa, lavá-la para comer. (Apenas um detalhe: havia fruta variada em nossa casa. Não era fome.)
Chego em casa e, meu pai ao ver a maçã, pergunta por cima do jornal que lia:
- O Sr. Carvalho deu-te uma maçã? (Era hábito ele dar-me sempre uma fruta. Não por necessidade, graças a Deus; mas, mesmo, por mimo.)
Respondi, tranquilamente:
- Não.
Nesse momento, meu pai deixa o jornal de lado, olha-me bem nos olhos e atira-me outra pergunta:
- Pediste a maçã?
E eu, com a maior calma:
- Não.
Observando o semblante do meu pai, percebi que tinha feito asneira.
- Se ele não te deu e tu não pediste, como é que essa maçã está nas tuas mãos?
Eu já não me sentia muito confortável mas respondi:
- Eu peguei.
Não, não houve gritaria, nem palmadas, nem castigos, o que se seguiu, nunca mais esqueci.
- Não, Ana Paula; tu não pegaste. Tu roubaste! Quando se pega alguma coisa de outra pessoa, sem pedir autorização, é roubo. E, portanto, vais agora devolver o que roubaste. E eu vou contigo para desculpar-me pela tua atitude.
E lá tivemos mais um daqueles sermões, tipo: “se precisasses, que nem é o caso, pedias”; e mais uns outros tantos.
O caminho até à mercearia parecia não ter fim.
A maçã pesava imenso na minha mão.

Chamar o Sr. Carvalho, olhá-lo nos olhos e confessar o que tinha feito foi duro. Por um segundo, tive a impressão que o Sr. Carvalho ia dizer com a sua voz forte que estava tudo bem e que podia ficar com a bendita maçã. Mas ele olhou para o meu pai que estava atrás de mim e deve ter entendido que eu tinha que aprender essa lição de meu pai.
E aprendi!

quinta-feira, 26 de março de 2015

Parabéns, sempre!

Quando me perguntam quando o meu pai faleceu… sei o ano (2000) e o mês (agosto) mas, quanto ao dia, tenho que fazer um enorme esforço e, mesmo assim…
No entanto, lembro perfeitamente o dia do seu nascimento: 26 de março de 1927.
Será que isto quer dizer que não me importo com a morte?
Não será bem não me importar, mas uma das muitas coisas que aprendi com ele, é que temos que valorizar cada dia da nossa VIDA.
E por falar em coisas que ele me ensinou, ui, foram tantas, tantas frases, pensamentos, respostas, que permanecem na minha memória e (por incrível que possa parecer) vejo-me repetindo-as.
Apenas para citar umas poucas:

- Não nasceste rica. Terás que trabalhar, porém não escolhas a tua profissão porque está na moda ou porque dá status ou porque é “fácil”. Isso não importa. Escolhe aquela que irá dar-te o prazer de levantar a cada dia para ires trabalhar. A pior coisa que pode existir, é ires para o trabalho já revoltada, com mau humor. Escolhe aquela que, mesmo ficando cansada, te deixe feliz.

- Não te vou dizer para não beberes. Só te peço duas coisas: não mistures bebidas e NUNCA deixes o teu copo sozinho. (o mais engraçado é que só bebia com meus pais e, agora, só bebo com meu marido)

- O teu avô (paterno) morreu com enfizema pulmonar devido ao cigarro. Eu, apesar de ver o seu sofrimento, fumo quatro maços de cigarros, por dia. Sim, sou burro. Agora, cabe a ti, tomares uma atitude inteligente. (nunca fumei)

- Nunca tenhas vergonha se te apontarem o dedo e dizerem “aquela é pobre”. Ergue a cabeça, pois isso não é vergonhoso. Vergonha, seria, se dissessem que roubas, enganas ou tens duas caras!

- Não me importa se as tuas colegas vão ali ou acolá. Elas não são minhas filhas. Tu és!

- Não te exijo que sejas a melhor da turma. Exijo, sim, que sejas a melhor para ti.

(quando eu andava na escola primária, um dia perguntei-lhe o que ia ganhar se passasse de ano, pois minhas colegas iam receber prendas de seus pais)
– Nada. A tua profissão é ser estudante. O teu pagamento são as tuas notas. Da mesma forma, que vês como fico feliz ao trazer, ao fim de cada mês, o meu salário, espero que fiques feliz ao passar de ano, pois nós ficaremos.
(Verdade seja dita que, mesmo nunca prometendo recompensas nem prendas, ao fim de cada ano, eu sempre ganhava um livro em cuja dedicatória, escrita por meu pai, constava “Parabéns pelas boas notas. Continua a ser essa aluna aplicada. Com orgulho, teus pais.)

(quando ainda era adolescente) - Minha menina, espero que saibas que ainda és muito nova para namoros. Mais importante que namoricos, é o estudo!

(Um diálogo algumas vezes repetido, até que desisti de perguntar:)
- Pai, o que significa (uma qualquer palavra)?
- Procura no dicionário.
- O pai não sabe?
- Sei.
- Então porque não diz logo?
- Se eu disser, amanhã vais perguntar outra vez. Se tu procurares no dicionário, para além de aprenderes como procurar, "essa" palavra nunca mais vais esquecer.

(Quando eu fazia parte de um grupo de violões, no fim das atuações, meu pai nunca me aplaudia, enquanto que minha mãe até ficava em pé. Perguntei-lhe o porquê dessa atitude dele.)
- Não sou eu que tenho que aplaudir minha filha. Para mim, tocas muito bem. O prazer é ver os outros aplaudirem-te.

- Não esperes uma determinada data para mimares alguém. Sempre que puderes, dá um miminho. Se quiseres elogiar alguém, elogia. Não esperes por um momento especial. Faz tu, o momento especial.


E tinha tantas, tantas mais mas, uma das que acredito que é muito importante, é que ele fazia o que dizia. O seu discurso não era diferente das suas ações. Não eram apenas belas palavras da boca para fora, não. Para ele não existia "faz o que eu digo, não o que eu faço".
Precisamos de mais atitude e menos discurso!

terça-feira, 18 de junho de 2013

Esclarecimento

(imagem da net)
amiga da onça levantou uma dúvida sobre o meu nome.
Afinal, sou Ana Paula ou Rosa Carioca?
Chamo-me Ana Paula.
"Rosa Carioca" é uma forma de homenagem, como está esclarecido aqui.

sábado, 5 de maio de 2012

Minha Mãe

Não existem palavras suficientes para descrever o que sinto pela minha Mãe.
Minha grande e, muito sábia, Amiga, meu colo, minha cura, minha conselheira, meu TUDO.
Conhecia-me como ninguém... Eu não precisava falar para que ela me “ouvisse”.
Lia a minha alma.
Tinha sempre a palavra certa para toda e qualquer situação, por mais difícil que fosse.
Era o alicerce da nossa casa (como meu pai costumava sempre dizer a todos os seus amigos e colegas).
Possuía uma grande Fé; fé em Deus e no ser humano. Para ela, todas as pessoas mereciam uma segunda, terceira, quarta, ... , oportunidade.
Nunca desistia de nada e de ninguém. Sempre foi uma lutadora.
Era dona de uma força enorme que ultrapassava em muito a sua pequena e, aparente, frágil estatura. Sempre via “a luz ao fim do túnel. O seu lema era: melhores dias virão.
Nunca a ouvi ralhar, gritar ou elevar a voz. Inúmeras vezes, quando criança, não seguia as suas recomendações e acabava estatelada no chão, com joelhos e mãos esfolados. Corria, chorosa, para perto dela, temerosa que fosse ouvir um valente ralhete. Em vez disso, lá ia ela buscar o seu estojo de “primeiros socorros” e, ao mesmo tempo que tratava das minhas feridas, dizia “eu avisei, eu disse-te que isto podia acontecer”. E assim reagiu comigo sempre que alguma coisa corria mal, por não ter ouvido seus conselhos. Curava as minhas feridas, sem reprimendas, cuidava.
Transmitia uma calma, uma serenidade, não só ao meu pai e a mim, como a todos que se aproximavam dela, independente se fossem crianças, jovens ou adultos.
Minhas colegas de estudo preferiam realizar os trabalhos da escola/faculdade na minha casa, apesar de ser muito mais simples e humilde do que a delas, porque lá "sentiam paz".
Os animais sempre a procuravam (era incrível); os nossos cãezitos, quando estavam doentes ou sentiam dores, eram para ela que corriam.
Meu pai e eu, quando doentes, melhorávamos, quando ela pousava sua mão em nós.
Gostava muito do meu marido e, pela primeira vez na vida, não lutou contra a dor... Sentiu que ele iria fazer-me feliz e ... partiu ... Como ela mesma dizia, foi encontrar-se com o amor da sua vida, o meu pai.
Como sempre, ela estava certa.
A vida da minha mãe foi uma permanente lição: lição de como viver, como amar, como ser feliz, como fazer os outros felizes, como transformar cada momento em momentos especiais. Mas ela não me ensinou como fazer para que ela fosse eterna, apesar de ser eterna nas minhas lembranças.
Deixou uma grande saudade... Fazes-me muita falta, Mãe.

sábado, 17 de março de 2012

Pai

(Já publiquei este post mas, com a proximdade do Dia do Pai e com certa melancolia que se acentua em determinadas datas, resolvi republicá-lo com algumas alterações)

Já ouvi muitas vezes as pessoas lamentarem o pouco tempo que passaram com determinado familiar ou amigo. Que deviam ter feito isto ou aquilo; que deviam ter feito mais companhia, ou conversado mais, ou brincado mais ou passeado mais; enfim...
Eu só lamento não ter tido mais tempo para continuar a fazer o que sempre fiz enquanto tive meu pai: viver intensamente a sua companhia, aproveitar ao máximo os seus ensinamentos, rir das suas palhaçadas.
Quando eu era criança, ele era o meu companheiro de brincadeiras.
Lembro, perfeitamente, que quando ele saía para o trabalho, eu ainda dormia e quando ele chegava do trabalho… eu já dormia. Mas havia o domingo. Ah, o domingo! Era o nosso dia! Começava logo cedinho, eu pulando para a cama dos meus pais para começar a “farra”, enquanto minha mãe preparava o pequeno-almoço. Depois, se o tempo estivesse agradável, íamos passear no Jardim da Estrela. Ou íamos ao Jardim Zoológico, a Museus, Palácios, Castelos. Como tudo era Grande aos meus olhos de criança, assim como eram Grandes esses passeios!
Mas, se chovesse? Nenhuma chuva estragava o nosso dia! Brincávamos com os jogos da "Majora", com os carrinhos (meu pai fazia caminhos pelo meio das almofadas e almofadões, móveis e tapetes, enquanto minha mãe sorria, divertida com as cenas que fazíamos).
Com meu pai, aprendi a soltar papagaio, a jogar ao pião, ao mikado, ao dominó e às damas.
Fui crescendo e meu pai foi tornando-se “aquele” que sabia muito.
Começamos a colecionar selos. E atrás de cada selo, havia sempre uma lição que aprendi sem perceber que aprendia: geografia, história, política, personagens famosas, etc. Esses momentos foram fazendo parte da nossa vida.
Desde cedo fui convivendo com os livros e começou a desabrochar, em mim, uma grande paixão: o prazer de ler; e como meu pai soube alimentar essa paixão. Paixão essa que se tornou em um amor eterno. Como ele foi “direcionando” os autores e os temas para que o “prazer” não se apagasse na primeira deceção.
Começou a fase de “quando crescer quero ser”… e eu quis ser: professora, cientista, veterinária, ativista do Green Peace… E meu pai nunca se divertiu com estas minhas ambições, pelo contrário, instigava-me a que descobrisse em que consistia cada atividade desejadas. Mas quando os amigos perguntavam-lhe o que ele gostaria que eu fosse (médica, advogada, engenheira,…); meu pai sempre respondia: “Quero que ela seja feliz na profissão que escolher, seja ela qual for.”
Meus pais já tinham passado dos 30 anos quando eu nasci. Sempre ouvi falar do “conflito de gerações”, mas nunca soube o que era isso.
Nunca tive discussões com meu pai? É claro que tive e não foram poucas. A grande maioria por caprichos meus, por causa do meu feitio (muito parecido com o dele, claro). Também houve umas poucas vezes em que ele esteve errado. Nessas alturas, sempre foi HOMEM suficiente para reconhecer o erro e pedir desculpas. Por incrível que pareça, nesses momentos, ele ainda tornava-se MAIOR aos meus olhos.
Quantas vezes cancelei saídas com colegas pois preferia passear à beira-mar com ele! E como conversávamos, sobre variados assuntos, nesses longos passeios...
Sempre foi o meu companheiro, o meu amigo, o meu conselheiro, a minha referência.
Ele ensinou-me que a maior lição está na “atitude” e não só nas palavras. Aquela frase “faça o que eu falo e não o que eu faço”, nunca teve serventia lá em casa.
O que meu pai “exigia” de mim, ele também praticava. Se eu tinha que dizer aonde ia, com quem e a que horas voltava; meu pai também tinha a mesma atitude com minha mãe; por exemplo.
O respeito sempre foi uma via com dois sentidos.
Aliás, o Respeito era algo levado muito a sério: respeitar o outro, respeitar a natureza, respeitar a nós próprios, respeitar os nossos sentimentos e os dos outros, independente de sexo, religião, partidos políticos, times de futebol, etc.
Meu pai sabia cativar os jovens, os velhos, as crianças. Como? Era tão simples: sabia ouvi-los.
Como é bom quando alguém nos ouve!
Enfim, podia escrever muito mais sobre o meu pai mas … por tudo isto e muito mais... sinto muito a tua falta, Pai...

sábado, 22 de outubro de 2011

22 de OUTUBRO de 1949

(imagem tirada da net)
“Até que a morte os separe” ou “que seja eterno enquanto dure” ou “estava escrito nas estrelas”…
Meu pai nasceu no Rio de Janeiro, em 1927.
Meus avós paternos tinham ido ao Brasil por causa das comemorações do Centenário da Independência, em 1922 (pois meu avô era parente do aviador Sacadura Cabral que, juntamente com Gago Coutinho, realizou a travessia aérea do Atlântico) e apaixonaram-se por esse país, ficando a viver nele. Quando meu pai tinha uns 13 anos, regressaram a Lisboa pois meu bisavô adoecera e meu avô não queria estar longe do seu pai.
Minha mãe nasceu em Casablanca, Marrocos, em 1928.
Meu avô materno tinha ido para esse país, devido a negócios. Ele e seu sócio tinham uma fábrica de conservas de sardinhas em lata. Quando minha mãe tinha uns 14 anos, regressaram a Lisboa, pois meu avô soube que seu sócio não estava a ser honesto e preferiu perder a sociedade mas manter seu “nome limpo”.
Meu pai começou a trabalhar aos 17 anos, deixando para trás o sonho de vir a ser engenheiro agrónomo, pois precisava ajudar em casa.
Minha mãe começou a trabalhar aos 20 anos, pois queria ter algum “dinheirinho” para si.
Coincidência, acaso ou destino? Mas os escritórios onde meus pais trabalhavam ficavam na mesma rua de Lisboa e meu pai começou a reparar “na cor do cabelo daquela jovem” do outro lado da rua.
A colega e amiga de minha mãe logo reparou nos olhares daquele rapaz e avisou-a, no sentido de que ela também retribui-se um simples olhar.
“Nem pensar! Imagina que vou acenar para esse magricela!”
Mas os olhares continuaram! E a coragem foi crescendo até meu pai, finalmente, falar com minha mãe. E o namoro começou, em casa de meus avós maternos, claro! Porém não foi só o namoro que começou, também foi o início dos contratempos, pois as minhas avós não concordavam com o namoro.
Minha avó paterna queria que meu pai casasse com uma jovem rica, filha de uma sua amiga. Por outro lado, minha avó materna, simplesmente, não queria que minha mãe casasse, pois era sua intenção que viesse a ser a dama de companhia (criada) da futura esposa do filho mais velho (meu tio).
Depois de uma série de aborrecimentos, contratempos, empecilhos, meu pai desistiu de ir namorar em casa de minha mãe. Comunicou-lhe que não iria aparecer mais. Disse-lhe que, no ano seguinte, no dia em que ela completasse 21 anos, telefonaria e perguntaria se queria casar com ele.
E assim foi! No dia 1 de setembro de 1949, meu pai telefona à minha mãe:
- “Parabéns! Feliz Aniversário! Queres casar comigo?”
No dia 22 de outubro, do mesmo ano, meus pais casam pelo Registo Civil, contra tudo, contra todos.
Foi neste casamento que eu nasci, cresci, vivi e aprendi o que é um relacionamento feito de respeito, cumplicidade, companheirismo, compreensão, união, ternura, cuidado, afeto, amizade, AMOR.
Eles conversavam com o olhar. Parece incrível mas até havia transmissão de pensamento entre eles.
Meu pai sempre se confundia quando lhe perguntavam a minha data de nascimento, mas nunca esqueceu a data do casamento.
A única vez que vi meu pai chorar, como uma criança, foi quando a minha mãe teve que ser internada para ser retirado líquido do seu pulmão. Lembro perfeitamente do desespero de meu pai e dele dizer “A mãe não vai morrer, pois não? Ana Paula, eu não sei viver sem ela!”
Comemoram 50 anos de casados.
Meu pai partiu primeiro. Minha mãe, quando viu que eu tinha encontrado alguém que seria para mim, como meu pai foi para ela, também partiu.
Ficaram unidos até que a morte os separou?
O Amor deles foi eterno enquanto durou?
Estava escrito nas estrelas que um menino nascido no Continente Americano e uma menina nascida no Continente Africano iriam conhecer-se e casar no Continente Europeu?
Não sei qual a resposta certa.
Sei que tive o privilégio de ser filha de um casal que, apesar de todas as enormes dificuldades financeiras, apesar das contrariedades familiares, apesar dos obstáculos que a vida resolveu oferecer, sempre teve a preocupação de cuidar, proteger, defender, “mimar” o outro, sempre manteve a união, o amor e a alegria de viver a Vida, a cada dia.