
Hoje, da janela da sala, enquanto estou a trabalhar no computador, ouço os sinos a tocar por quem já partiu. Nas aldeias de Portugal, ainda há esse costume; os sinos dobram quando alguém morre.
Aos poucos, pessoas chegam à igreja, para velar e depois acompanhar o cortejo fúnebre até ao cemitério.
E é aí, que eu não entendo...
Por quê as pessoas vão aos velórios?
Por quê as pessoas querem acompanhar o caixão até ao cemitério?
Meus pais diziam que era para sermos solidários na dor daqueles que eram mais próximos da pessoa que partiu e, na medida do possível, dar o nosso apoio, o nosso ombro, o nosso abraço, o nosso silêncio triste.
Mas não é isso que eu vejo. O que eu vejo, são pessoas chegando "numa boa", sorrindo, rindo, alegres porque já não viam o fulano e o beltrano há muito tempo, a perguntarem como têm passado, a falar da vitória da Espanha, etc. E como consigo perceber tudo isso da janela da minha sala? Tão simples! O convívio é tão efusivo que mais parece uma Festa de Aldeia.
Enquanto isso, dentro da igreja, há pessoas que sentem o peso enorme da tristeza, da solidão e, para mim, o peso da falta de respeito com a sua dor.
Não percebo! Se não estão solidários na dor, porque vão? Para fazer número?
Quantas vezes, meu pai estava em casa, a ouvir música no seu rádio, e, assim que ouvia o dobrar do sino, desligava, imediatamente, o rádio. Eu perguntava-lhe: "Mas o pai sabe quem morreu? Conhece?" E ele, olhava para mim, com uma cara de espanto, e respondia: "E interessa saber quem morreu, Ana Paula! Alguém morreu e, por isso, devemos respeitar a dor daqueles que o perderam. Se acontecesse contigo? Perderes alguém de quem gostavas, irias gostar de ouvir música ou pessoas rindo? É apenas uma questão de respeito, filha."
Uma questão de respeito.
Quando perdi meus pais, meus filhos, meus tios, assisti ao mesmo. Quando as pessoas vinham falar comigo, vinham cabisbaixo, mas assim que se afastavam... Sim, graças a Deus, tive muitas pessoas a meu lado, sempre solidárias com as minhas perdas; não só naqueles momentos, como depois.
Pessoas que me conhecem, dizem que sou radical, que devia ser mais complacente, pois bem. Prefiro continuar a "ouvir" o meu pai: "É uma questão de respeito!"
Portanto, no meu entender, se não é para ser solidário com a dor, por favor, não é preciso "fazer número".