Memorial

Companheiros de Pensamentos

sexta-feira, 20 de março de 2009

Pai

Já ouvi muitas vezes as pessoas lamentarem, ao lado de um caixão, o pouco tempo que passaram com esse familiar ou amigo.
Só lamento não ter tido mais tempo para continuar a fazer o que sempre fiz: aproveitar sempre a companhia do meu pai.
Quando eu era criança, ele era o meu companheiro de brincadeiras.
Lembro, perfeitamente, que quando ele saía para o trabalho, eu ainda dormia e quando ele chegava do trabalho… eu já dormia. Mas havia o domingo. Ah, o domingo! Era o nosso dia! Começava logo cedinho, eu pulando na cama dos meus pais para começar a “farra”, enquanto minha mãe preparava o pequeno-almoço. Depois, se o tempo estivesse agradável, íamos passear no Jardim da Estrela, e eu brincava nos baloiços. Grandes passeios! Mas, se chovesse? Brincávamos com os carrinhos (meu pai fazia caminhos pelo meio das almofadas e almofadões, e móveis e tapetes e minha mãe … só sorria, divertida com as cenas que fazíamos).
Com meu pai, aprendi a soltar papagaio, a jogar ao pião, ao mikado, ao dominó e às damas.
Fui crescendo e meu pai foi tornando-se “aquele” que sabia muito.
Começamos a coleccionar selos. E atrás de cada selo, havia sempre uma lição que aprendi sem perceber que aprendia: geografia, história, política, personagens famosas, etc. Esses momentos foram fazendo parte da nossa vida.
Foi na adolescência que desabrochou em mim uma grande paixão: o prazer de ler; e como meu pai soube alimentar essa paixão. Paixão essa que se tornou um amor eterno. Como ele foi “direccionando” os autores e os temas para que o “prazer” não se apagasse na primeira decepção.
Começou a fase de “quando crescer quero ser”… e eu quis ser: professora, cientista, veterinária, activista do Green Peace… E meu pai nunca se divertiu com estas minhas ambições, pelo contrário, provocava-me a que descobrisse em que consistia cada actividade dessas. Mas quando os amigos perguntavam-lhe o que ele gostaria que eu fosse (médica, advogada, engenheira,…); meu pai sempre respondia: “Quero que ela seja feliz na profissão que escolher, seja ela qual for.”
Meus pais já tinham passado dos 30 anos quando eu nasci. Sempre ouvi falar do “conflito de gerações”, mas nunca soube o que era isso. Não sei o que é a “idade do armário”.
Nunca tive discussões com meu pai? É claro que tive e não foram poucas. A grande maioria por caprichos meus, por causa do meu feitio (muito parecido com o dele, claro). Também houve umas poucas em que ele esteve errado. Nessas vezes, ele sempre foi HOMEM suficiente para reconhecer o erro e pedir desculpas. Por incrível que pareça, nesses momentos, ele ainda crescia mais aos meus olhos.
Muitas vezes cancelei saídas com colegas porque preferia passear à beira-mar com ele.
Sempre foi o meu companheiro, o meu amigo, o meu conselheiro, a minha referência.
Ele ensinou-me que a maior lição está na “atitude” e não só nas palavras. Aquela frase “faça o que eu falo e não o que eu faço”, nunca teve serventia lá em casa.
O que meu pai “exigia” de mim, ele também praticava. Se eu tinha que dizer aonde ia, com quem e a que horas voltava; meu pai também tinha a mesma atitude com minha mãe; por exemplo.
O respeito sempre foi uma via com dois sentidos.
Meu pai sabia cativar os jovens, os velhos, as crianças. Como? Era tão simples: sabia ouvi-los.
Como é bom quando alguém nos ouve.
Enfim, podia escrever muito mais sobre o meu pai mas … por tudo isto e muito mais, sinto muito a tua falta, Pai.

2 comentários:

sonia disse...

Eu não sei o que isso é..infelizmente que o meu se foi à muito muito tempo...Mas tive o prazer de conhecer o pai fantástico que tinhas e sei que o que falas é verdadeiro e sentido pois o pouco que conheci revelou-me sempre uma pessoa honesta, serena, feliz com a vida, simples e como o brasileiro fala "gente boa"...

nunoanjospereira disse...

... quando eu nasci, o meu pai emigrou para que nós não passassemos fome. Conseguiu.