Memorial

Companheiros de Pensamentos

sexta-feira, 25 de abril de 2014

LIBERDADE


Nasci e cresci em regimes ditatoriais, em dois países: Portugal e Brasil.
A Ditadura é um bom regime?
Ninguém gosta de viver com o sentimento de que está constantemente a ser vigiado e controlado.
Meu avô paterno era monárquico e, até à sua morte (1961), sempre ostentou na lapela de seu casaco o pin da monarquia. Frequentava os cafés de Lisboa, como “Brasileira”, “Nicola”; e sempre manteve grandes diálogos, sobre assuntos como música e política, mesmo tendo a plena consciência de que, na mesa ao lado, estariam elementos da PIDE.
Meu pai, por duas vezes, quis tentar “melhorar de vida”, saindo de Portugal. Na primeira vez, foi chamado à PIDE para responder a várias questões: queria ir para onde?; para quê?; por quê?
Após responder a todas as questões e mais algumas, voltou a ser chamado para mais uma série de questões. Pelo meio do interrogatório, meu pai olhou bem para o agente e “atirou”:
- O senhor sabe mais da minha vida do que eu próprio. Já sabe as respostas antes de fazer-me as perguntas. Portanto, vamos parar de gastar o nosso tempo: ou autoriza a minha saída, ou não.
(Meu pai nunca foi o exemplo de serenidade; muito pelo contrário, manifestava-se sempre contra toda a atitude de prepotência e injustiça.)
E assim meu pai foi trabalhar 4 anos no Brasil.
Na segunda vez, logo à primeira “entrevista”, meu pai “atirou” a mesma frase e poupou-se muito tempo: foi para Angola, indo minha mãe e eu, passado pouco tempo.
Será que eles tinham sorte? Não sei.
Será que nunca sofreram represálias por não terem filiação política?
Talvez.
Sei que nunca alteraram a sua maneira de ser, a sua postura, as suas convicções no que diz respeito a justiça e respeito ao outro e a si mesmo, enquanto indivíduo.
Após a revolução de cravos, já em 1975, decidimos ir para o Brasil, pois por estas bandas, no auge da “tal” liberdade, impediam que todas as pessoas que voltavam de Angola tivessem acesso ao emprego. Sim, inúmeras vezes estava tudo encaminhado para meu pai preencher determinada vaga, ATÉ ele mencionar o seu último emprego. AÍ, como magia, a vaga deixava de existir.
Bem, se aqui tínhamos a PIDE, lá no Brasil, tínhamos o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Desde o momento que fomos ao Consulado do Brasil para pedir a autorização de entrar no país, até a receber, passaram 4 meses. Meu pai, tendo nascido lá, teve que esperar que o DOPS pesquisasse toda a sua vida, principalmente se tinha envolvimentos de ordem política.
Sim, o regime ditatorial é controlador.
Agora vivemos com LIBERDADE!
Liberdade essa que manipula a forma como se ensina; liberdade essa que força recém licenciados a sair de seu país; liberdade que “usurpa” direitos adquiridos, à custa de muita luta; liberdade que “deixa” manifestar-te à vontade para, a seguir, premiar-te com a “NÃO RENOVAÇÃO” do teu contrato de trabalho ou, melhor, “promove-te” para um outro lugar bem mais distante da tua residência; liberdade que “rouba” os nossos salários e obriga-nos a trabalhar mais tempo.
Se calhar, os CAPITÃES DE ABRIL, lá no seu íntimo, devem estar a perguntar-se: FOI PARA ISTO ?
E agora surge a questão: - Prefiro viver numa ditadura ou numa democracia?
Desejo viver num regime político onde todos tenham a liberdade para ter acesso a um sistema público de saúde eficiente e de qualidade; onde todos tenham a liberdade para ter acesso a um ensino público de ensino onde se respeite o ritmo de aprendizagem de cada indivíduo e valorize-se as suas capacidades e competências; onde todos tenham a liberdade de ter acesso a um trabalho com condições e salário dignas; onde todos tenham a liberdade de ir e vir em segurança; onde todos tenham a liberdade de ter acesso a um serviço de justiça, verdadeiramente, imparcial; onde todos tenham a liberdade de poder desejar envelhecer pois sabem que terão uma velhice com qualidade.

Neste momento, sinto que vivo num regime muito pior do que a ditadura…

14 comentários:

luisa disse...

Mas vivemos em liberdade. Os problemas são inegáveis e é precisamente graças à liberdade em que vivemos que não é possível escamoteá-los.

Maria Alice Cerqueira disse...

Querida amiga, eu vim agradecer a sua doce presença em meu cantinho!
Obrigada pelo carinho de sua presença e amizade!
Por favor, me perdoe o copia e cola, é que no momento estou muito sem tempo para deixar aquele recadinho especial.
Hoje sou portadora de uma linda noticia.
Eu e meu marido somos avós, Ligia a nossa netinha nasceu ontem ás 6 h.3º da manhã.
Nasceu de 7 para 8 meses, mas com a graça de Deus ela está bem e a minha nora tmaém!
Um maravilhoso fim de semana para você.
Abraço amigo
Maria Alice

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Um texto muito bom para celebrar esta democracia apenas para a classe política. Sim apenas eles estão bem e mesmo estão bem demais.
O povo está cada dia pior.
Mais fome e desemprego.
Pior educação e saúde.~
Nada melhorou...

Margarida disse...

ah, Rosa... :(
eu tenho 40 anos, 40 anos vividos em liberdade, embora em 1975 a minha família tivesse sido obrigada a regressar a Portugal. fomos para uma aldeia a 12 km de Viseu, mas era como se regressássemos quase à Idade Média. era tudo tão atrasado. a minha família veio sem nada, para a casa antiga da minha avó. complicações familiares obrigaram à divisão da casa pelas duas irmãs, a minha avó e a minha tia-avó. e depois, éramos os retornados. tão pejorativo.
todavia, não troco nada do que vivi nestes 40 anos em liberdade. imagino-me se estivesse em 1944, ou em 1954, com 40 anos, sem as oportunidades que tive para estudar, sem a possibilidade de viver sozinha, sem direito a votar, uma mulher com 40 anos seria uma solteirona olhada de lado. não poderia viajar com a liberdade com que hoje o faço, ter um blogue como tenho, andar de calças! como as mulheres eram olhadas de lado se não seguissem os costumes.
eu sou funcionária pública. não entrei com uma licenciatura, fiz-me começando por baixo. sim, sofri muito com os cortes, sem os subsídios, o meu trabalho obriga-me a acordar às 6 da manhã e entrar em casa mais de 12 horas depois. mas não troco nada disto para regressar ao tempo da 'outra senhora'.

Rosa dos Ventos disse...

Nunca poderá ser pior do que a ditadura, desculpe não concordar!
Deu-se a descolonização, a democratização e o desenvolvimento, ficando aquém do esperado, também se deu!
Há muito para fazer, mas houve conquistas irreversíveis e pelo voto este(des) governo irá à vida!

Agradeço a visita

Zilani Célia disse...

OI ROSA CARIOCA!
SABE AMIGA, ENQUANTO LIA TEU TEXTO, QUE ALIÁS ESTA UM PRIMOR, FUI ME INDIGNANDO, TENDO DE RESPONDER TUA PERGUNTA COM UM "SIM", PREFIRO A DITADURA A DEMOCRACIA.
MAS, A ESTA DEMOCRACIA IMPLANTADA NO BRASIL E EM PORTUGAL, ONDE O POVO É MERO COADJUVANTE, ENTÃO ONDE ESTÁ A DEMOCRACIA?
NÃO QUERÍAMOS COPA DO MUNDO NO BRASIL, QUERÍAMOS SIM, MELHORAS NA SAÚDE, QUE ESTÁ UM CAOS E NA SEGURANÇA, POIS ESTAMOS A MERCÊ DE BANDIDOS, NOS ENCARCERANDO EM NOSSAS CASAS, ENQUANTO A BANDIDAGEM SE REFESTELA, ROUBANDO E MATANDO, POIS SABEM QUE AS PRISÕES BRASILEIRAS ESTÃO SUPER LOTADAS ENTÃO, A JUSTIÇA OS PRENDE, MAS SABEM QUE NÃO FICARÃO MUITO TEMPO NAS MESMAS.
ENTÃO, QUE DEMOCRACIA É ESTA, QUE SERVE SÓ AOS LADRÕES QUE NÓS MESMOS COLOCAMOS NO GOVERNO, ESTE "NÓS" QUE DIGO, SÃO "O POVÃO", QUE ESTÁ SENDO COMPRADO E MANIPULADO COM AS FAMOSAS"BOLSAS" QUE INDUZEM
A VAGABUNDAGEM, QUANDO O QUE DEVERIA ESTAR SENDO FEITO, ERA A INDUÇÃO AO TRABALHO DIGNO, COM INCENTIVOS A PEQUENAS EMPRESAS O QUE GERARIA EMPREGO E SALÁRIO GANHO PELO TRABALHO E NÃO PARA QUE SEJAM ELEITORES EM POTENCIAL.
BOM AMIGA, VOU PARAR POR AQUI, POIS TERÍAMOS MUITO QUE DIVIDIR NESTE MOMENTO PELA REALIDADE DE NOSSOS PAÍSES O QUE NOS DÓI O CORAÇÃO.
MAIS UMA VEZ TE PARABENIZO PELA CLAREZA DE TEUS ESCRITOS.
ABRÇS

http://zilanicelia.blogspot.com.br/

São disse...

Prefiro viver em Democracia, sempre e apesar dos pesares e dos defeitos da consumação do próprio modelo!

O "bom povo português" continua a votar ( quando cumpre o seu dever) por partidarite sem se preocupar com o desempenho e / ou experiência de quem se candidata.

Por isso, actualmente, estamos em ditamole ( perdoa o neologismo), já que , ao fim de décadas e décadas no Poder e tendo sido ele a iniciar a destruição de tudo quanto era produtivo - além da estóra das acções do BPN e das escutas - o reformado de Boliqueime vive em Belém e afirma que um país normal só tem eleições de quatro em quatro anos.

Sendo assim, durante esse período, o Governo (desde que agrade ao Presidente como é o caso ) tem carta branca para fazer quanto entender e assim se passa a uma ditadura de, pelo menos, quatro anos.

Quanto ao MFA creio que quem resta não se revê nesta pobreza material e mental em que o país está mergulhado.

Teus pais , cuja coerência respeito e admiro, tiveram talvez pouca sorte mesmo, pois eu trabalhei com pessoas vindas do Ultramar aquando da descolonização.

Boa semana

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

É verdade que o espírito do 25 de Abril foi traído, mas não tenho dúvidas que, apesar de tudo, prefiro viver este tempo em que estamos muito melhor do que antes.
Tenho familiares brasileiros que viveram a ditadura e aquilo não foi nada bom de se ver...

João Roque disse...

Questões pertinentes, sem dúvida, mas o essencial, se é melhor viver em liberdade ou em ditadura, só pode ter uma resposta: em LIBERDADE!
Não acho que estejamos a viver pior que numa ditadura, por muito mal que estejamos, mas poderemos estar a caminhar para uma nova ditadura, isso eu concordo.

Bruxa disse...

E compartilho dos seus sentimentos...
Isso, infelizmente, não é democracia. Pra mim, vivemos em ditadura mascarada. Nessa época do ano, onde faço inúmeras declarações de imposto de renda, minha revolta cresce. As pessoas trabalham o dia todo, em 2, 3 empregos... lógico ganham mais, aí dão a fatia do governo. Compram um carro com o que sobra e vai mais para o governo, tentam comprar um imóvel, vai mais para o governo. Pagam escolas, convênios ou dentistas e se brincar, ainda tem que contribuir com mais, pois o que ficou retido ainda está abaixo.
É um país de ladrões, ganância e pouca vergonha. Quem governa pensa que dinheiro movo o mundo. Triste e pra melhorar, teria que começar tudo de novo.
Amo a Lispector e adorei a participação dela na sua postagem.
Abraços e linda tarde.

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa noite,
Depois de ler mais que uma vez que escreveu, vou responder em liberdade, apesar da crise que vivemos causada pelo sistema financeiro e pelo momento mau que vivemos governados por um governo e um presidente igualmente incompetente, o nosso Portugal não tem comparação ao estado novo, que nada deu de bom ao povo, Em democracia tivemos o enorme desenvolvimento positivo, na saúde, habitação, educação, comunicação, rodovia, energias renováveis, investigação, industria, etc. etc.
Apesar de termos recuado nestes últimos 3 anos na qualidade de vida, mesmo assim, vivemos melhor e para melhor vamos caminhar quando os incompetentes largarem o governo.
Compreendo a sua magoa, concordo que nem tudo tem sido positivo e que existe muita coisa para retificar no futuro, não percamos a esperança nem o direito de usarmos em liberdade a nossa arma que é o voto para mudarmos um Portugal melhor para todos nós.
Desejo-lhe felicidades em liberdade.
ag

http://momentosagomes-ag.blogspot.pt/

Nilson Barcelli disse...

Claro que a democracia é o único sistema político decente que existe.
Mas tudo depende do uso que fazem da democracia, pois agora acho que vivemos num período de ditadura económica. Não há poder político em Portugal e em muitos outros países democráticos.
Bom feriado e bom fim de semana, querida amiga Rosa.
Beijo.

Mariazita disse...

Bom dia, Ana
Hoje passo apenas para desejar um muito feliz Dia da Mãe.
Voltarei com mais tempo para te ler e comentar.

Feliz Dia da Mãe.
Beijinhos

Smareis disse...

Complicado essa liberdade, que não é tão liberdade assim...
O povo a cada dia mais pobre e eles mais rico. Falta tudo principalmente educação e saúde e ele nem se incomoda. Só Deus pra nos proteger.

Beijos e ótima semana!