Memorial

Companheiros de Pensamentos

sábado, 10 de julho de 2010

Memórias geram memórias

Ao ler as “Memórias” do Carlos Albuquerque, foram reavivadas as minhas.
Carlos escreveu:
“a fumar um cigarro enrolado com a parte acesa virada para dentro da boca, como fazia a lavadeira da minha casa enquanto esfregava a roupa com o filho dormitando agarrado às costas por um pano envolvendo-lhe o peito.”; e logo lembrei da “nossa” Ana.
Ana lavava a nossa roupa, pois a minha mãe tinha um desvio da coluna que sempre lhe provocou muitas dores e que se agravavam quando fazia esforços.
Lembro, perfeitamente, a primeira vez que a Ana começou a trabalhar lá em casa.
Era hábito, além do salário, fornecer o pequeno-almoço, o “mata-bicho”.
Naquela primeira manhã, Ana chegou e foi logo para o quintal, onde estava o tanque e a roupa para ser lavada.
Minha mãe preparou o pão com manteiga para mim e para a Ana, colocou o café com leite nas nossas canecas e chamou a Ana para tomar o pequeno-almoço. Ana entrou, pegou a caneca e o pão e voltou para o quintal. Olhei para a minha mãe, espantada. Então? A Ana? Minha mãe disse que, se calhar, devia ter ido fechar a torneira mas foi ver e viu a Ana a comer, sentada no chão.
Voltou a chamá-la para comer na sala de jantar. Minha mãe teve que insistir para que ela entrasse. Ana entrou e minha mãe disse para se sentar à mesa, para tomar o pequeno-almoço connosco.
Aí a Ana disse um redondo NÃO!
Lembro tão bem!
- Não, eu fico em pé e vocês sentadas.
Eu tinha 8 anos. Sem pensar duas vezes, levantei-me e disse: - Se Ana pode comer em pé, eu também posso; não é, mãe?
Minha mãe olhou-me com um olhar cúmplice, voltou-se para a Ana e, num tom baixo, disse-lhe: - Está a fazer com que minha filha me desobedeça!
Ana olhou-a muito séria. - Não. Não quero causar isso!
E, a partir dessa manhã, sempre que Ana vinha lavar a roupa, tomávamos o “mata-bicho” sentadas à mesa. Poucas conversas mas grande ternura.
Lembro do cigarro. Fazia-me uma aflição enorme ver aquilo. Certo dia, perguntei-lhe se dessa forma não doía, não queimava. Ela mostrou-me o céu-da-boca, dizendo: Agora já não dói, já estou acostumada.
Durante o tempo que a Ana trabalhou lá em casa, teve um filho, um lindo bebé que levava amarrado às costas e, desse jeito, trabalhava.
Minha mãe insistia para que colocasse o bebé nas nossas camas, para que não ficasse ao sol, ao calor, mas ela sempre dizia que não fazia mal, que sempre era assim nas outras casas, onde trabalhava.
Confesso que usei um pouco de chantagem emocional ao dizer-lhe que ela só não deixava porque não confiava em mim, por ser ainda uma criança. A Ana tinha um coração nobre, grande carácter, e para provar que confiava em mim e na minha mãe, deitou seu filho na minha cama.
Ele era lindo! Tão rechonchudo! Fiquei encantada a olhá-lo e minha mãe reparou que os olhos de Ana encheram-se de lágrimas, de comoção. Mais tarde, quando já tinha mais uns aninhos, percebi o porquê dessas lágrimas: a convivência entre os seres humanos podia ser sempre assim…
Não tenho nenhuma foto da Ana, nem do marido Castelo, nem do filhote. E porquê? – Foto, não! Rouba-nos a alma!

6 comentários:

Maria João disse...

Como essas vivências foram importantes para a formação do nosso caracter! Não é por acaso que elas permanecem tão vivas na nossa memória!

Gostei imenso de te ler!

Beijinhos

blogdaSerenadog disse...

Oi Ana!
Seu texto é muito bonito! Algumas memórias são tão vivas que quase podemos tocá-las, sentimo-lhes de maneira muito intensa.
Essa intensidade você evidenciou de uma forma muito doce e sutil.
Adorei...
Bjs.

Luís Coelho disse...

Estive em África e esta história, mexeu comigo por relembrar tantos episódios de medos e tradições próprias dos nativos.
Uma das situações que mais me impressionou:
As pretas saíam para o campo trabalhar nas suas hortas. Voltavam para casa na hora do calor, com os filhos às costas e na cabeça um molho de troncos secos.
Coziam arroz com ervas que depois colocavam em cabaças cortadas pelo meio e que pareciam bacias.
Os homens sentavam-se à volta e começavam a comer o arroz amassando-o em pequenas bolas que iam metendo na boca.
Elas e os filhos não podiam comer ali. Perguntava: Será que tem comida na palhota...?

Pepi disse...

Olá,
Lindo texto
Viemos retribuir a visitinha
Vamos torcer...
Lambeijos e Ronrons
Pepi e Xixo

Regina Rozenbaum disse...

Eiiii, Rosa.
Vim agradecer sua visita e conhecer seus "Pensamentos e Sentimentos". Deparo-me com memórias que são puro sentimentos!TÔDENTRO!
Já estou também a te seguir.
Beijuuss n.c.

www.toforatodentro.blogspot.com

Rosa Carioca disse...

Maria João, tem razão; não é por acaso.
Serena, parece que tudo aconteceu "ontem".
Pois é, Luís Coelho, o que me fazia condusão era o homem ir à frente da mulher que caminhava atrás carregada de embrulhos ou cestas. Meu pai perguntou, certo dia, se achava isso certo. Ele respondeu: - Claro. Tenho que ter as mãos livres para defender minha mulher, se for preciso!
Pepi, gosto de ver-te por aqui.
Regina, muito obrigada pela companhia.