Memorial

Companheiros de Pensamentos

domingo, 21 de abril de 2013

Não teremos mais nada!

"Se eu não fosse imperador, desejaria ser professor. Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro."  (D. Pedro II)


Sinceramente, gosto muito de ser professora mas fico indignada com a falta de respeito, ou melhor, com a falta de conhecimento sobre a nossa função.
Sempre ouvi meus pais dizerem que: "na escola recebes a instrução, em casa recebes a EDUCAÇÃO."
Desde cedo, isto é, desde o primeiro ano de escolaridade, meus pais ensinaram-me que EU era a responsável pelo meu trabalho como aluna; o que englobava: prestar atenção nas aulas, tirar todas as dúvidas com os professores, realizar as tarefas pedidas (tanto na escola como em casa) e, principalmente, exercitar a educação que levava de casa.
Meus pais nunca "se preocuparam" se eu tinha ou não trabalhos para casa, se eu tinha ou não que estudar para testes.
Deixaram sempre bem claro que a minha profissão era ser aluna e, portanto, tinha que aprender, desde cedo a organizar-me, a ser responsável nas minhas tarefas.
É claro que deram-me as "ferramentas" necessárias: uma alimentação saudável, muito carinho, uma presença constante enquanto pais/amigos/companheiros.
Mas nunca questionaram se havia muito trabalho para casa, se havia muitos testes...
Quando eu reclamava porque algum professor aplicava um "teste surpresa", ouvia como resposta: "É tua obrigação estar preparada!"
Quando eu reclamava que tinha testes em dias consecutivos, recebia como resposta: "Organiza-te; mesmo porque não se estuda SÓ de véspera!"
Sim, em minha casa, respeitava-se a profissão de Professor.
Significa que Professor nunca erra? Claro que não! Em todo o meu percurso enquanto aluna, houve uma situação que meu pai teve que falar com uma professora e houve outra que eu discuti com o professor (porque dirigiu-se ofensivamente à turma). Respeito é uma via de "mão dupla".
No entanto, nos dias de hoje, a impressão que tenho é que "certos" pais infantilizam demais seus filhos. Chamam para si responsabilidades que cabem a seus filhos.
Nos dias de hoje, colocam os filhos no futebol, no balé, na banda, no judo, no basquetebol, na natação,... e a escola que, no meu entender, deveria ser a 1ª prioridade fica renegada a acessório. E o pior: não sobra tempo para a criança BRINCAR.
E aí sobra para o Professor! Que não devia mandar tarefas para casa, a fim de consolidar os conteúdos trabalhados em aula, que não devia marcar muitos testes, que não devia puxar tanto pelos alunos... sem falar que também há quem reclame por o Professor "insistir" para que o aluno coma o seu lanche, para que não fique muito tempo sem se alimentar (!).
Há dias que tenho vontade de "chutar o balde".
Por outro lado, felizmente, muitos pais conhecem bem a nossa função e, o mais importante, educam os seus filhos, preparando-os para serem responsáveis, ativos, participativos.
E lá se foi mais um desabafo!
Amanhã, terei uns olhinhos risonhos, umas carinhas prontas para receber e dar muita energia.
 
 

10 comentários:

JP disse...

Olá Rosa,
Que bonitos pensamentos....

Mas sabes? Se hoje não fosse professor, gostaria de ser Imperador...para que continuassem a haver, no futuro, médicos, engenheiros, advogados ou simples cidadãos bem formados.

Mas os professores, hoje, são sacerdotes no deserto....

Beijo

luisa disse...

É bem verdade que muitos jovens de hoje não são educados para a responsabilidade. Os pais demitem-se de os treinar nesse sentido.

João Roque disse...

Gostei muito deste teu texto.
Ser Professor é uma profissão a que muita não dá o devido valor.
E mal vai um governo quando despreza de forma grosseira esta classe.
Fui professor durante vários anos e é das coisas de que mais me sinto orgulhoso.

quem és, que fazes aqui? disse...


"Nos dias de hoje, colocam os filhos no futebol, no balé, na banda, no judo, no basquetebol, na natação,... e a escola que, no meu entender, deveria ser a 1ª prioridade fica renegada a acessório. E o pior: não sobra tempo para a criança BRINCAR."

Gostei do texto. Tudo o que nele está escrito é verdade!

E, de facto, os pais demitiram-se do seu papel de EDUCAR. Põem os filhos em todas as atividades que imaginem para os não terem em casa.

Há quatro anos, por conveniência da minha escola, deram-me duas turmas de 5º Ano. Nunca tinha lecionado 2º ciclo pois optei, no estágio, pelo 3º ciclo e Secundário. Nessa altura, quase no final do 1º período, uma Encarregada de Educação foi à escola falar com a DT. Motivo - a professora de Língua Portuguesa, eu, mandava fazer, no fim de semana, como trabalho de casa uma composição. Alegava a EE que, assim, não podiam sair a passear. Cúmulo!!! Claro que eu disse à miúda que as não fizesse.

Rosa, que não podiam sair a passear!!!

Esvaziaram a autoridade e a capacidade de trabalho dos professores. Como na altura eu tinha mais três turmas do 3ª Ciclo, onde semanalmente pedia o texto - eram cerca de 120 que tinha que ver no fim de semana. Que não podia passear e estar com a família era eu.
Valeu a pena? Claro que sim, os meus alunos agradecem-me ainda hoje o ensinar-lhes a escrever e eu revejo-me nas notas que eles mantiveram e no sentir, em consciência, que fiz o que gostaria que fizessem à minha filha (que nunca trouxe um texto para elaborar em casa)

Quanto ao brincar, nesse ano a última aula dos períodos tiveram como súmario - BRINCAR. E aí fomos todos brincar para o recinto escolar e divertimo-nos à grande!

Beijo

Laura

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Sempre tive imenso respeito pelos professores e muitas vezes fui criticado por os defender. Essa ideia de que eram uns privilegiados, no entanto, foi ganhando forma e força e acabou no que se está a ver...

OZNA-OZNA disse...

Infinitas gracias querida poetisa por obsequiarnos tan bellos pensamientos y acariciar nuestra alma con ellos. Muchos besinos de esta amiga con inmenso cariño.

Anónimo disse...

Felismente ainda há muito bons professores que apenas querem o melhor para seus alunos (os seus meninos, como oiço dizer), ótimos pais que respeitam o trabalho do professor e não se demitem do seu, junto dos filhos, nem relegam a sua educação... Felismente também ainda há bons alunos...muitos, que ouvem o professor e aprendem alegremente o que se lhes ensina...Felismente! Bj. Parabéns pelo blog. Beta

Faty Laouini disse...

Esta é uma profissão complicada, nos dias de hoje. Também tenho alturas em que estou tão saturada, há tantas atitudes por parte de alunos e de pais que são inacreditáveis. Não há educação, respeito, sentido de responsabilidade. Estamos a travar uma luta desigual, contra 1001 solicitações lá fora, tecnologias, estilos de vida. Receio que não seja possível reverter... não com a ajuda destas consecutivas incoerências governativas.
Bj solidário

Fê Blue bird disse...

Minha querida amiga professora.
Um desabafo que merece todo o nosso respeito e admiração.
Haverá sempre pessoas que não respeitam nada nem ninguém, mas tenho a certeza que basta haver um aluno teu ou um pai que revele por ti a consideração que mereces para toda essa mágoa se diluir.

adorei a última imagem :)

Um beijinho grande

Raquel disse...

Verdade! Verdadinha!